Mariana Ramos seguia com a família pela Avenida Radial Oeste, no Maracanã, quando o sinal fechou. De uma moto parada três carros à frente, um homem armado desceu e rendeu o pai da médica, que estava ao volante do Honda CR-V, modelo que chega a custar 180 000 reais. Além do veículo, o bandido levou documentos e celulares, e, por sorte, ninguém se feriu. O crime aconteceu com o dia ainda claro, na tarde de 21 de abril, um sábado. “Minha impressão é que a cidade está entregue e não há mais lugar tranquilo”, comenta a jovem de 23 anos, vítima de uma situação cada vez mais comum. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública, nos últimos três anos o número de casos de roubo de automóvel no estado saltou de 31 035 para 54 366, um aumento de 75%. Com a violência em alta, não teve jeito: o preço dos seguros de carro no estado subiu em média 60% desde 2016 e virou uma dor de cabeça a mais para muitos motoristas.

Gol, Hyundai HB20 e outros modelos populares são os mais visados pelos bandidos. Em geral, o destino dos carros roubados é a revenda ou o desmonte, com as peças abastecendo uma rede de mais de 500 ferros-velhos espalhados pela cidade. Entre as áreas mais perigosas do estado, destacam-­se São Gonçalo e bairros da Zona Norte, como Pavuna, Vila da Penha e Honório Gurgel. Nos municípios da Baixada, principalmente Belford Roxo e São João de Meriti, a situação é ainda mais crítica. Tanto que nessas regiões a proteção de um automóvel de 50 000 reais pode custar hoje 12 000 reais, quase 25% do valor do veículo, o que acaba, muitas vezes, inviabilizando a compra da apólice. “Estou no ramo há 53 anos e nunca vi o Rio em um estado tão calamitoso. Uma das consequências é que ficou mais caro, para os dois lados, assegurar os bens”, afirma Henrique Brandão, presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros do Rio de Janeiro.

Outro fator que vem encarecendo as apólices é a dificuldade que as autoridades encontram para recuperar os automóveis. Por diversos motivos. Em março, a produtora de TV Luiza Drable teve o carro levado com celulares e equipamentos de filmagem em Madureira. Os policiais da 29ª DP, no entanto, negaram-se a incluir no registro da ocorrência uma informação decisiva: o GPS dos telefones roubados mostrava que os veículos estavam no Complexo do Chapadão, em Costa Barros. “Em países como a França, a taxa de recuperação chega a 90%, enquanto a nossa não passa dos 50%”, diz Ronaldo Vilela, diretor executivo do Sindicato das Seguradoras dos Estados do Rio e do Espírito Santo. Não à toa, o Rio foi apontado como a cidade com os seguros de carro mais caros do Brasil em um levantamento realizado pela Minuto Seguros. Em razão disso, a compra de apólices no estado diminuiu 15% na comparação de 2017 com 2016. “Isso é ruim para o setor como um todo, porque os corretores usam as apólices de carro como porta de entrada para outros produtos”, explica Brandão.

Por mais que a intervenção federal na área de segurança pública represente uma esperança nesse mercado, as estatísticas ainda não reagiram. Entre janeiro e março deste ano, o número de roubos de automóveis no estado cresceu 14% em relação ao mesmo período de 2017. Em regiões como Niterói, o índice é até pior: o aumento foi quase duas vezes maior. “Dirigir no Rio hoje é uma loteria, na qual o motorista pode perder o carro na primeira esquina”, adverte Vilela. Entretanto, a expectativa de corretores e seguradoras é que o patrulhamento reforçado de tropas militares em pontos estratégicos e outras medidas melhorem as coisas a médio e longo prazos. Com mais segurança e menos roubos, o preço das apólices deve começar a cair a partir do segundo semestre e voltar a níveis normais durante o ano que vem. Por enquanto, não há muito o que fazer. Evitar áreas com muitos assaltos e trocar o carro pelo táxi nas saídas noturnas são alguns dos conselhos dos especialistas do setor a quem não quer entrar nas estatísticas.